Por que o oceano às vezes muda de cor, e o que isso revela sobre a saúde dos mares
Do verde intenso ao brilho azulado durante a noite, cientistas explicam os mecanismos naturais por trás das florações de algas e como elas ajudam no monitoramento ambiental
CURIOSIDADES


Em algumas regiões do planeta, o oceano pode assumir cores que parecem destoar completamente da paisagem marinha habitual. Tons de verde intenso, vermelho e até um brilho azulado visível durante a noite já foram registrados em diferentes partes do mundo. Embora causem estranhamento a quem observa pela primeira vez, esses fenômenos são naturais, relativamente bem compreendidos pela ciência e, mais importante, funcionam como indicadores valiosos da saúde dos ecossistemas marinhos.
O papel dos organismos microscópicos
A cor da água do mar depende de uma combinação de fatores, entre eles a profundidade, o ângulo de incidência da luz solar e, principalmente, a presença de organismos microscópicos suspensos na coluna d'água. Quando a concentração desses microrganismos aumenta de forma expressiva, a aparência do oceano pode se transformar rapidamente, criando paisagens que parecem incomuns aos olhos de quem não conhece o fenômeno.
O principal responsável por essas mudanças costuma ser um evento conhecido cientificamente como floração de algas nocivas, ou HAB (sigla em inglês para harmful algal bloom). Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), esse tipo de floração ocorre quando algas ou cianobactérias presentes na água crescem de forma acelerada e passam a produzir toxinas que podem prejudicar pessoas, animais e o equilíbrio do ecossistema local. O fenômeno costuma se manifestar como espuma, camadas espessas ou manchas na superfície da água, alterando sua cor para tons de verde, azul, marrom, vermelho, entre outros.
Onde e por que essas florações acontecem
De acordo com a NOAA, esses eventos podem se formar tanto em água doce quanto salgada ou salobra (mistura das duas), e tendem a se desenvolver com mais frequência em águas quentes com altas concentrações de nutrientes como nitrogênio e fósforo, elementos que costumam se acumular no escoamento de áreas agrícolas para rios, lagos e regiões costeiras. Em alguns casos, o problema é agravado pela presença de espécies invasoras. É o caso dos mexilhões zebra e quagga, encontrados no Lago Erie, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá: eles filtram e consomem as algas verdes inofensivas já presentes na água, o que acaba favorecendo a multiplicação desproporcional das cianobactérias potencialmente tóxicas.
Há ainda outro fenômeno frequentemente confundido com as florações de algas, mas com origem diferente: a bioluminescência marinha. Certas espécies de plâncton, como os dinoflagelados do gênero Noctiluca, têm a capacidade de emitir luz própria quando agitadas pelo movimento das ondas ou pela passagem de embarcações, criando aquele brilho azulado característico observado durante a noite em algumas praias ao redor do mundo.
Como a ciência acompanha esses eventos
O monitoramento desses fenômenos por satélite não é recente. A NOAA relata que o uso de imagens orbitais para rastrear florações de algas remonta ao outono de 1987, quando dados de satélites da própria agência foram usados para acompanhar uma floração da espécie Karenia brevis, organismo responsável pela chamada "maré vermelha da Flórida", na costa da Carolina do Norte. Desde então, o acompanhamento por satélite se tornou uma ferramenta central para cientistas que estudam a frequência, a duração e a intensidade desses eventos em diferentes partes do globo.
Ao identificar mudanças na coloração da água, pesquisadores conseguem inferir quais organismos estão presentes na região e quais condições ambientais, como temperatura, disponibilidade de nutrientes e padrões de correntes marítimas, favoreceram o surgimento do fenômeno. Essas informações se tornam, então, ferramentas práticas de gestão ambiental, contribuindo para a pesca sustentável, o turismo costeiro e a preservação de ecossistemas sensíveis.
O que ainda intriga os cientistas
Apesar do avanço no entendimento desses mecanismos, ainda existem lacunas importantes. Cientistas ainda têm dificuldade em prever com precisão quando, onde e com que intensidade uma nova floração vai ocorrer, já que fenômenos semelhantes podem surgir em regiões completamente distintas do planeta, tornando complexa a identificação exata dos fatores que desencadeiam seu início e seu desaparecimento. Por isso, cada nova ocorrência observada por satélite ou em campo continua sendo tratada pela comunidade científica como uma oportunidade de aprimorar os modelos que ajudam a antecipar impactos ambientais e proteger a vida marinha nas próximas décadas.
Fonte: NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) — Harmful Algae Blooms (HABs)
Imagem: Portal Aureum
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