IA divide Wall Street: por que a Microsoft dispara na bolsa enquanto o Google enfrenta ceticismo dos investidores

Resultados trimestrais das duas gigantes de tecnologia mostram crescimento robusto puxado por inteligência artificial, mas o mercado reagiu de forma oposta aos planos bilionários de investimento em infraestrutura

ECONOMIA

8/1/20264 min ler

Duas das maiores empresas de tecnologia do mundo divulgaram, na mesma semana, resultados trimestrais recordes impulsionados pela inteligência artificial. Ainda assim, o mercado reagiu de maneiras opostas: as ações da Microsoft dispararam, enquanto os papéis da Alphabet, controladora do Google, amargaram perdas expressivas. O contraste ilustra uma preocupação crescente entre investidores, o retorno financeiro dos bilhões de dólares que as big techs vêm despejando em data centers e chips para sustentar a corrida pela IA.

Microsoft supera expectativas e Azure ultrapassa marca histórica

No dia 29 de julho, a Microsoft divulgou os resultados do quarto trimestre fiscal de 2026, encerrado em 30 de junho. A receita somou 90 bilhões de dólares, alta de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior, superando com folga a expectativa de mercado, que era de 87,6 bilhões de dólares. O lucro por ação ajustado ficou em 4,74 dólares, também acima da projeção de analistas, de 4,24 dólares.

O destaque do balanço ficou por conta do Azure, plataforma de computação em nuvem da empresa: a receita anual da divisão ultrapassou, pela primeira vez na história, a marca de 100 bilhões de dólares, com crescimento de 43% apenas no último trimestre, uma aceleração em relação aos 40% registrados no trimestre anterior. Em comunicado, o presidente executivo da Microsoft, Satya Nadella, destacou ainda que o Microsoft 365 Copilot, assistente de inteligência artificial da empresa, já soma mais de 30 milhões de assinantes pagantes.

Outro dado que chamou atenção dos investidores foi a carteira de contratos futuros da empresa, que cresceu 84%, chegando a 678 bilhões de dólares. Segundo a diretora financeira Amy Hood, boa parte desse crescimento veio de clientes fora do círculo de grandes laboratórios de IA, sinal de que a demanda por serviços em nuvem não depende apenas de poucas empresas do setor. A Microsoft também revisou para baixo sua previsão de investimentos de capital para 2026, de cerca de 190 bilhões para aproximadamente 175 bilhões de dólares, ao alongar a vida útil estimada de seus imóveis e data centers de 15 para 25 anos, o que reduz a pressão contábil desses gastos no curto prazo. Diante do conjunto de resultados, as ações da empresa saltaram cerca de 8% no pregão eletrônico após o fechamento do mercado, e a alta chegou a superar 15% ao longo do pregão seguinte.

Alphabet também cresce, mas investidores questionam o custo da expansão

O cenário foi diferente para a Alphabet. Em 22 de julho, a empresa anunciou receita líquida de 119,8 bilhões de dólares no segundo trimestre, alta de 24% na comparação anual, também acima da expectativa do mercado, de 116,5 bilhões de dólares. O lucro operacional cresceu 30% no período, e o backlog de contratos da divisão de nuvem, uma medida de negócios futuros já firmados, saltou para 514 bilhões de dólares, com as vendas da área de computação em nuvem crescendo 82%.

O problema, para boa parte dos investidores, não foi o desempenho operacional, mas o tamanho da conta que sustenta esse crescimento. A Alphabet elevou sua projeção de investimentos de capital para 2026 para uma faixa entre 195 bilhões e 205 bilhões de dólares, ante uma estimativa anterior menor, o que ampliou o ceticismo do mercado em relação ao retorno desses gastos bilionários no curto e médio prazo. A dívida da empresa cresceu 111% nos seis primeiros meses do ano, somando 98 bilhões de dólares, e a companhia registrou fluxo de caixa livre negativo em um trimestre pela primeira vez em sua história recente, algo incomum para uma empresa historicamente conhecida por gerar caixa de forma consistente.

A reação imediata do mercado foi dura: as ações da Alphabet caíram cerca de 7% na sessão seguinte à divulgação do balanço, e o movimento contaminou outras gigantes de tecnologia que dependem de infraestrutura semelhante para seus próprios projetos de inteligência artificial, entre elas Amazon e Meta, que também registraram quedas na mesma semana.

O que explica a diferença na reação dos investidores

A divergência entre os dois papéis resume um debate mais amplo que atravessa o setor de tecnologia neste momento: até que ponto os investimentos massivos em infraestrutura de inteligência artificial estão realmente se convertendo em receita e lucro, e não apenas em promessas de crescimento futuro. No caso da Microsoft, o mercado interpretou os números como prova concreta de que o Azure já colhe resultados tangíveis da aposta em IA, com aceleração de crescimento e previsão de gastos sob controle. Já no caso da Alphabet, mesmo com receita recorde, os investidores se mostraram mais cautelosos diante do ritmo acelerado de expansão do capex e da deterioração do fluxo de caixa livre, elementos que costumam pesar sobre a percepção de risco de uma companhia.

Analistas também apontam que parte do lucro líquido divulgado pela Alphabet no trimestre, que somou 112,1 bilhões de dólares, um salto de 298% em relação ao ano anterior, veio principalmente de um ganho contábil de cerca de 99 bilhões de dólares relacionado a participações acionárias em outras empresas, entre elas a Anthropic, e não do desempenho operacional do negócio. Esse tipo de ganho não recorrente tende a ser descontado pelo mercado na hora de avaliar a saúde real da companhia, o que ajuda a explicar por que, mesmo com lucro recorde no papel, as ações não reagiram da mesma forma que as da Microsoft.

Fonte: Microsoft — Microsoft Cloud and AI strength fuels fourth quarter results

Imagem: Portal Aureum

Leia também:

Entre em contato

portalaureum@gmail.com