Enchente no Rio Grande do Sul obrigou diretor gaúcho a terminar filme com imagens geradas por inteligência artificial
Davi Pretto, vencedor do Troféu Candango de Melhor Longa-Metragem, recorreu à IA depois que a enchente histórica de 2024 inundou locações e interrompeu as filmagens de "Futuro Futuro" por meses
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Um dos casos mais curiosos do cinema brasileiro recente une tragédia real e ficção científica em um mesmo projeto. O cineasta gaúcho Davi Pretto, diretor de títulos como Castanha (2014), Rifle (2016) e Continente (2024), viu as filmagens de seu novo longa-metragem, Futuro Futuro, serem interrompidas por meses depois que a enchente histórica atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Diante de locações completamente inundadas e recursos limitados para retomar o projeto, Pretto tomou uma decisão pouco convencional: recorrer a imagens geradas por inteligência artificial para concluir a obra.
Um filme sobre o futuro que virou reflexo do presente
Ambientado em um futuro próximo, Futuro Futuro acompanha um mundo em que os avanços da inteligência artificial já fazem parte do cotidiano e convivem com o surgimento de uma misteriosa síndrome neurológica. A trama segue K, um homem de cerca de 40 anos sem qualquer lembrança do próprio passado, interpretado pelo ator potiguar Zé Maria Pescador, conhecido por O Clube dos Canibais (2018) e pela série Maria e o Cangaço (2025). Ele é acolhido por um "clickworker" solitário de 60 anos em uma região empobrecida de uma chuvosa cidade brasileira, e é justamente o contato com um dispositivo de IA, durante um curso voltado a pessoas afetadas pela condição, que dá início à jornada do protagonista.
O elenco reúne ainda nomes conhecidos do cinema nacional, como João Carlos Castanha, protagonista do primeiro longa de Pretto, além de Carlota Joaquina e Higor Campagnaro. A atriz Olivia Torres, de Ainda Estou Aqui (2025), também participa do projeto emprestando sua voz ao trabalho.
Quando a realidade invadiu a produção
Rodado em apenas 16 dias em Porto Alegre, o longa teve boa parte de suas locações previstas completamente inundadas pela enchente que devastou o estado gaúcho, considerada uma das maiores catástrofes climáticas já registradas na região. Segundo relato do site especializado Papo de Cinema, a equipe precisou repensar o projeto do zero diante de um cenário inesperado, o que levou Pretto a incorporar as imagens de inteligência artificial não apenas como elemento estético do futuro distópico narrado no roteiro, mas também como solução criativa concreta para viabilizar a finalização de um filme cuja própria produção havia sido atravessada por uma tragédia real.
O resultado é uma obra que usa a inteligência artificial de forma diferente da que costuma dominar os debates recentes sobre cinema e IA. Em vez de esconder o recurso, o longa transforma seu uso em parte do próprio discurso da narrativa, convidando o público a refletir sobre o potencial estético, e também o estranhamento, provocado por imagens artificiais, além de questionar como essas tecnologias vêm alterando o trabalho, as relações humanas e a própria percepção de realidade.
Reconhecimento em festivais antes da estreia comercial
Antes de chegar aos cinemas, Futuro Futuro já havia percorrido um caminho de prestígio internacional. O filme estreou mundialmente no Festival Internacional de Karlovy Vary, na República Tcheca, um dos polos cinematográficos mais tradicionais da Europa, e depois se consagrou grande vencedor do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde faturou o Troféu Candango de Melhor Longa-Metragem pelo júri oficial, além dos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Montagem, e uma menção honrosa para o protagonista Zé Maria Pescador.
Segundo o site Tela Viva, a distribuição do longa nos cinemas brasileiros, pela Cajuína Filmes e Atelier W, contou com patrocínio do BNDES por meio de um edital voltado a projetos audiovisuais de longa-metragem. Marina Moreira, superintendente da área de Relacionamento, Marketing e Cultura do banco, afirmou que a instituição "acredita na força do audiovisual brasileiro para estimular o diálogo e a reflexão crítica sobre temas relevantes para a sociedade, sem abrir mão da emoção e do engajamento com o público".
Um debate que vai além do próprio filme
O caso de Futuro Futuro acrescenta uma camada pouco discutida ao debate sobre inteligência artificial e cinema: em vez de tratar a tecnologia apenas como ameaça ao trabalho humano ou como ferramenta de baixo custo para produções comerciais, o filme de Davi Pretto a incorpora como resposta emergencial a um desastre natural, ao mesmo tempo em que usa essa mesma tecnologia como matéria-prima temática para discutir os limites do fazer cinematográfico independente em um mundo marcado tanto por catástrofes climáticas quanto pelo avanço acelerado da inteligência artificial.
Fonte: Papo de Cinema — Futuro Futuro: Inteligência artificial se tornou parte da narrativa, e da produção, do novo filme de Davi Pretto
Imagem: Portal Aureum


Imagem: O cineasta brasileiro Davi Pretto, diretor e roteirista de filmes como Castanha, Rifle, Continente e Futuro Futuro. Foto: Papo de Cinema.
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