Emprego e IA: o que os números mais recentes revelam sobre o impacto real da automação no mercado de trabalho

Estudos do Banco Mundial e da FGV mostram que o efeito da inteligência artificial sobre vagas de emprego já é mensurável, mas atinge de forma desigual jovens, iniciantes de carreira e ocupações administrativas

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

8/3/20263 min ler

Passados quase quatro anos desde o lançamento do ChatGPT, o debate sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho deixou de ser hipotético. Uma série de estudos recentes, produzidos por instituições como o Banco Mundial e o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), já conseguem medir, com dados concretos, como a tecnologia vem alterando a composição das vagas disponíveis, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

O que mostram os dados americanos

Um estudo do Banco Mundial, divulgado em 2025, analisou dados em tempo real de anúncios de vagas de emprego online nos Estados Unidos para medir o efeito da inteligência artificial generativa sobre a demanda por trabalho. O resultado: entre o fim de 2022, quando o ChatGPT foi lançado, e junho de 2025, ocupações com maior pontuação de risco de substituição por IA registraram queda média de 12% no número de vagas abertas, na comparação com ocupações menos expostas à tecnologia.

Mais revelador ainda é o ritmo desse efeito. Segundo o levantamento, a queda no número de vagas passou de aproximadamente 6% no primeiro ano após o lançamento do ChatGPT para 18% no terceiro ano, o que sugere que o impacto da inteligência artificial generativa sobre o mercado de trabalho se acumula à medida que a tecnologia amadurece e se espalha por diferentes setores da economia, em vez de se estabilizar rapidamente. O estudo identificou ainda que essa retração é mais acentuada entre candidatos sem diplomas avançados e trabalhadores no início de carreira, com destaque para funções de apoio administrativo, onde a queda chega a 40%, e serviços profissionais, com retração de 30%.

O cenário no Brasil

Um mapeamento produzido pelos pesquisadores Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, do FGV IBRE, com base em um índice da Organização Internacional do Trabalho estruturado a partir de tarefas ocupacionais, chegou a uma conclusão semelhante para a economia brasileira. Segundo os autores, "o grau de exposição dos trabalhadores à Inteligência Artificial generativa é maior entre as mulheres, mais jovens, mais escolarizados, na região Sudeste e no setor de serviços, em especial nos serviços de informação e comunicação e serviços financeiros".

O levantamento aponta que, no terceiro trimestre de 2025, quase 30 milhões de trabalhadores no país estavam em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa, o equivalente a 29,6% da população ocupada no Brasil. Segundo reportagem do Olhar Digital sobre o estudo, cerca de 5,2 milhões desses trabalhadores estavam no nível mais alto de exposição, concentrados sobretudo entre os mais jovens, mais escolarizados e residentes na região Sudeste.

Substituição ou reconfiguração?

Os próprios pesquisadores da FGV IBRE fazem questão de evitar uma leitura simplista dos números. Segundo eles, "o problema não deve ser lido como uma dicotomia simples entre substituição e complementaridade, mas como uma reconfiguração do conteúdo do trabalho". Esse referencial teórico, popularizado pelos economistas Daron Acemoglu e Pascual Restrepo, sustenta que tecnologias como a inteligência artificial podem atuar de três formas simultâneas: substituindo tarefas antes feitas por humanos, criando novas tarefas que exigem trabalho humano especializado, ou aumentando a produtividade de atividades já existentes, complementando, em vez de eliminar, o trabalho das pessoas.

Essa reconfiguração já aparece nos dados de anúncios de vagas nos Estados Unidos: em setores mais expostos à inteligência artificial, empresas reduzem a ênfase em tarefas rotineiras de processamento de informação e aumentam a demanda por competências ligadas a julgamento, interação humana e supervisão dos próprios sistemas de IA, incluindo funções emergentes como curadoria de dados e engenharia de prompt.

Um recorte que preocupa especialmente os mais jovens

Entre os grupos mais afetados, chama atenção o impacto sobre trabalhadores no início de carreira. Um estudo do pesquisador Daniel Duque, que aprofunda o levantamento original do FGV IBRE, mostrou que a automação já reduziu as chances de contratação de profissionais entre 18 e 29 anos, justamente o público que tradicionalmente ocupava posições de entrada em áreas administrativas, atendimento ao cliente e produção de conteúdo, funções que estão entre as mais expostas à substituição por ferramentas automatizadas, segundo apurou o Olhar Digital.

Para os pesquisadores, a resposta mais eficaz não está em resistir à adoção da tecnologia, mas em antecipar a reconfiguração de competências que ela exige. Ocupações que dependem de habilidades sociais, criatividade contextual e interação presencial, como diversas funções de cuidado e educação, seguem menos expostas ao risco de automação, o que reforça a importância de programas de requalificação profissional capazes de preparar trabalhadores para a nova composição de tarefas que o mercado vem exigindo.

Fonte: FGV IBRE, com base em dados do Banco Mundial (2025)

Imagem: Portal Aureum

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