Xi Jinping Cria Organização Internacional de Cooperação em IA
Durante uma conferência em Xangai, Xi Jinping anunciou a criação de uma organização internacional de cooperação em inteligência artificial, destacando a ascensão de modelos chineses de código aberto no mercado global.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL


No dia 17 de julho, o presidente chinês Xi Jinping subiu ao palco da Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, e anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, conhecida pela sigla WAICO. A entidade, sediada na própria cidade chinesa, já nasceu com a assinatura de 29 países membros e reflete uma aposta estratégica de Pequim: transformar o acesso à inteligência artificial em algo aberto, colaborativo e, em boa parte, gratuito.
O discurso e a proposta chinesa
Em seu discurso, Xi defendeu que o desenvolvimento da IA não deveria ser tratado como uma disputa isolada entre potências. Usando um provérbio chinês, ele afirmou que uma corda sozinha não faz música, assim como uma única árvore não forma uma floresta, argumentando que o avanço da tecnologia deveria se dar por meio da cooperação internacional, e não de uma corrida solitária liderada por um único país. Como parte do anúncio, o governo chinês se comprometeu a oferecer, ao longo dos próximos cinco anos, cinco mil oportunidades de treinamento e capacitação em inteligência artificial para países em desenvolvimento, além de centros de cooperação voltados a aplicações práticas da tecnologia em parceria com blocos regionais como a Associação de Nações do Sudeste Asiático, a Liga Árabe e a União Africana.
O movimento chinês soa, à primeira vista, como um discurso diplomático de cooperação internacional. Mas ele também representa um desafio direto ao modelo de negócios adotado pelas principais empresas americanas de inteligência artificial. Companhias como OpenAI, Anthropic e Google cobram pelo acesso a suas versões mais avançadas de modelos de linguagem. Já os grandes modelos chineses, como o DeepSeek, o Qwen e o Kimi, são distribuídos de forma gratuita ou quase gratuita, com código aberto disponível para qualquer desenvolvedor ou empresa do mundo usar, adaptar e redistribuir sem custo algum.
Modelos chineses ganham espaço no mercado global
Os números por trás dessa estratégia já são expressivos. O Qwen, desenvolvido pelo grupo Alibaba, se tornou o modelo de inteligência artificial mais baixado do mundo, somando 385 milhões de downloads e superando o Llama, da Meta. Na plataforma OpenRouter, que reúne modelos de diferentes fornecedores em um único ambiente, os quatro sistemas mais utilizados atualmente têm origem chinesa. Modelos como o DeepSeek V4, o Kimi K2 e o Qwen Plus também reduziram de forma significativa a diferença de desempenho que antes separava as ferramentas chinesas das americanas, oferecendo qualidade comparável a um custo até 60% menor que o das alternativas pagas.
Parte da comunidade de analistas de tecnologia já batizou essa estratégia de "dumping de inteligência artificial", numa referência à prática de distribuir um produto deliberadamente abaixo do custo de mercado para tornar concorrentes irrelevantes e transformar toda uma camada da indústria em commodity.
Um momento de pressão sobre os custos de IA
O timing dessa disputa não é casual. Empresas ao redor do mundo começaram a se preocupar com o custo crescente de operar sistemas de inteligência artificial em escala. O próprio presidente-executivo da OpenAI, Sam Altman, reconheceu publicamente em junho que o gasto com tokens, unidade usada para medir o consumo de processamento desses modelos, deixou de ser um assunto irrelevante no início do ano e se tornou uma preocupação concreta em poucas semanas. Na Uber, por exemplo, todo o orçamento reservado para ferramentas de inteligência artificial em 2026 já havia sido consumido em apenas quatro meses de uso. Segundo estimativas da consultoria Gartner, o mercado global de modelos de IA deve movimentar 23,5 bilhões de dólares em 2026, o dobro do registrado no ano anterior, mesmo com o custo unitário por token caindo de forma expressiva por conta da concorrência.
Uma disputa que pode redefinir quem lucra com a IA
Analistas de mercado enxergam nessa disputa um paralelo histórico com o início da internet comercial. Nas décadas de 1990 e 2000, empresas de infraestrutura de rede, como roteadores e servidores, concentravam o maior valor do setor, a ponto de a fabricante de equipamentos Cisco chegar a ser, por um breve período, a empresa mais valiosa do mundo. Com o tempo, à medida que essa infraestrutura se tornou padronizada e mais barata, o valor migrou para quem construiu aplicações sobre ela, caso de empresas como Google, Amazon e Facebook, que nunca fabricaram um único cabo ou roteador.
A pergunta que ainda não tem resposta definitiva é se o mesmo padrão vai se repetir com a inteligência artificial. Hoje, fabricantes de chips como a Nvidia e provedores de modelos como a OpenAI concentram grande parte do valor da cadeia produtiva. Mas, se a estratégia chinesa de tornar os modelos de linguagem gratuitos avançar como planejado, esse valor pode migrar para quem souber usar essas ferramentas para resolver problemas concretos em áreas como saúde, logística, educação e finanças, e não necessariamente para quem construiu a tecnologia em si.
Fonte: Escritório de Informação do Conselho de Estado da China / Xinhua — Full text: Keynote speech by Chinese President Xi Jinping at opening ceremony of 2026 World AI Conference
Imagem: Portal Aureum
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