A agricultura mais antiga do planeta não é humana: formigas cultivam fungos há 66 milhões de anos

Estudo do Smithsonian revela que a parceria entre formigas cortadeiras e fungos começou logo após o asteroide que exterminou os dinossauros, muito antes de o Homo sapiens sequer existir

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8/4/20263 min ler

Muito antes de o ser humano plantar a primeira semente, outros seres vivos já cultivavam seu próprio alimento. Um estudo conduzido por cientistas do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, nos Estados Unidos, revelou que colônias de formigas começaram a cultivar fungos há 66 milhões de anos, exatamente no período em que um asteroide de pelo menos 10 quilômetros de diâmetro colidiu com a Terra e provocou a extinção em massa que eliminou os dinossauros não avianos do planeta.

Uma parceria nascida das cinzas de uma catástrofe

Publicado na revista científica Science, o estudo reconstituiu, por meio de árvores genealógicas genéticas, a linha do tempo evolutiva dessa relação entre formigas e fungos. Segundo os pesquisadores, o impacto do asteroide não apenas causou uma das maiores extinções da história do planeta, como também criou, paradoxalmente, condições ideais para a proliferação de fungos, já que a redução drástica da luz solar interrompeu quase por completo a fotossíntese, favorecendo organismos capazes de se alimentar de matéria orgânica em decomposição.

Foi nesse cenário devastado que algumas formigas passaram a ajudar, ainda que de forma involuntária, a disseminar esses fungos e a defendê-los de outros organismos que poderiam consumi-los. Segundo Ted Schultz, entomologista, curador de formigas do museu e autor principal do estudo, "as formigas praticam agricultura assim como os humanos". Para chegar a essa conclusão, o pesquisador e sua equipe analisaram dados genéticos de 475 espécies de fungos, sendo 288 delas cultivadas por formigas, além de 276 espécies de formigas, das quais 208 são cultivadoras de fungos, formando o maior banco de dados genéticos já reunido sobre esse tipo de relação simbiótica.

Da cooperação simples à agricultura sofisticada

O levantamento identificou que essa parceria evoluiu em etapas ao longo de milhões de anos. Nos primeiros milhões de anos após o impacto, as formigas cultivavam espécies de fungos que ainda podiam ser encontradas soltas na natureza, uma relação de cooperação mais simples. O salto evolutivo mais significativo, porém, aconteceu cerca de 27 milhões de anos atrás, quando um grupo de formigas domesticou por completo determinadas linhagens de fungos, tornando-as totalmente dependentes da própria colônia para sobreviver, em um paralelo direto com o processo pelo qual o ser humano domesticou as principais plantas que hoje formam a base da alimentação mundial.

Segundo os pesquisadores, esse período de domesticação plena coincidiu com uma fase de resfriamento climático global, quando secas na América do Sul transformaram regiões antes florestadas em extensas savanas áridas. À medida que as formigas cultivadoras de fungos se adaptaram a esse ambiente mais seco, elas passaram a carregar consigo suas próprias culturas fúngicas para novos territórios, o que teria acelerado ainda mais o processo de domesticação e especialização genética entre as duas espécies.

O auge da sofisticação: as formigas cortadeiras

Atualmente, quase 250 espécies de formigas das Américas e do Caribe praticam algum tipo de cultivo de fungos, organizadas pelos cientistas em quatro sistemas agrícolas distintos, de acordo com o grau de sofisticação da técnica empregada. No topo dessa escala estão as formigas cortadeiras, praticantes do que os pesquisadores chamam de "agricultura superior": elas cortam pedaços de folhas frescas e os levam para dentro do ninho, onde servem de alimento para o fungo cultivado. Esse fungo, por sua vez, produz estruturas ricas em nutrientes chamadas gongilídios, que sustentam colônias inteiras de formigas, capazes de reunir milhões de indivíduos.

Um vínculo tão antigo quanto duradouro

O entomologista Ted Schultz dedicou 35 anos de carreira ao estudo dessa relação evolutiva, realizando mais de 30 expedições a regiões da América Central e do Sul, incluindo coletas de amostras no Brasil, para observar o fenômeno diretamente na natureza. "Precisamos de muitas amostras de formigas e de seus fungos cultivados para conseguir detectar padrões e reconstruir como essa associação evoluiu ao longo do tempo", explicou o pesquisador.

Ao final do estudo, Schultz resumiu o significado da descoberta em uma frase que resume bem a dimensão do achado: "As formigas praticam agricultura e cultivam fungos há muito mais tempo do que a própria humanidade existe. Provavelmente poderíamos aprender algo com o sucesso agrícola dessas formigas ao longo dos últimos 66 milhões de anos."

Fonte: Smithsonian's National Museum of Natural History — Ant Agriculture Began 66 Million Years Ago in the Aftermath of the Asteroid That Doomed the Dinosaurs

Imagem: Portal Aureum

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